Espaço público, Cultura, Política, Comunidade, Território, Pessoas

Cidade da Cultura, ícone da Galiza

Há uns quantos anos, durante o governo PSdG/PSOE-BNG, perguntarom-me num meio de comunicação a minha opinião sobre a Cidade da Cultura. “Um disparate felizmente reconduzido”, respondim, com esperança projetiva. Passou o tempo.

Nunca tivem simpatia por aquele lugar, confesso. Nem eu nem muitas pessoas. Por muitas razões, que nascem já do destroço dum monte. Glosar aqui a megalomania, o excesso, o desnecessário, o ostentoso do projeto não vale a pena porque acho que é dado assente.

Numha investigação (https://redegalabra.org/wp-content/uploads/2019/06/ExpoWEB_GalCasEn_PaineisDEF_maio2019.pdf, 2014-2018) levada adiante polo Grupo de Investigação Galabra a que pertenço, na USC; a Cidade da Cultura aparecia, aos olhos daquele conjunto que mais diretamente poderia pensar-se ser beneficiário dela, a cidadania de Santiago de Compostela, como um lugar pouco representativo da cidade, até quase 5 pontos doutra Zona, a Nova (o Ensanche), que, no entanto, vai emergendo como espaço crescemente querido e emblemático, e que, tempo atrás, era posto como exemplo do rejeitamento consensual a espaços da cidade. Como espaço individualizado (não genérico), a Cidade da Cultura era o espaço mais citado polas pessoas de Compostela (14%) como resposta à pergunta “Na procura do Santiago verdadeiro, a que lugar não iria nunca”?

Imagem dum painel da exposição central do projeto expositivo, subsidiado pola Cámara Municipal, de alguns resultados de investigação do Grupo Galabra “A Cidade, o Camiño e nós”, que estivo na Alameda de Santiago de Compostela, entre maio e julho de 2019.
Imagem dum painel da exposição central do projeto expositivo, subsidiado pola Cámara Municipal, de alguns resultados de investigação do Grupo Galabra “A Cidade, o Camiño e nós”, que estivo na Alameda de Santiago de Compostela, entre maio e julho de 2019.

Visitei o Gaiás outras vezes, assistindo a algumha exposição, recentemente com a família, a dar um passeio, ir aos balouços… Provavelmente, irei mais vezes, agora que se anuncia ficar ali albergado, no edifício Domingos Fontán, o denominado CISPAC, um centro de investigação sobre Paisagens Atlânticas Culturais, assuntos do meu interesse profissional e pessoal…

Fazer daquele espaço um lugar massivo e popular é um belo desafio. E será bom. Deixará atrás a melancolia das origens. Justificará melhor todo o dinheiro investido e o que ainda há que investir. Será prático e terá o bom senso de reutilizar um quase mausoléu para um projeto massivo e vertebrador nacional, fomentando a sua apropriação.

As vistas da cidade e do entorno são, para mim, extraordinárias. O espaço é extensíssimo, incluindo o natural. Dá para bons passeios. Fiquei a pensar que, quando passem algumhas gerações, que retenhem/retemos a memória do esbanjamento, do gasto inútil e caprichoso, aquele espaço pode chegar a converter-se numha bela e querida representação da Galiza. Se a centros de investigação, a exposições, a assuntos prendidos a um determinado entendimento da cultural, restrito e elitista (dito isto sem caráter pejorativo), se unir umha proposta popular, integradora e inclusiva da entidade nacional galega. Lembro que, tempo atrás, circulavam valiosas ideias, como o dum centro mundial da emigração. Desde há muitos anos, penso que poderá acolher um grande museu e laboratório de saberes da Galiza, que recolha tudo o que @s galeg@s inventarom ao longo do tempo e, também e fundamentalmente, todos os saberes quotidianos e extraordinários, que nos trouxerom, até aqui; língua e configuração do território, claro; e desde a orientação e construção dumha casa ou os modos festivos a jeitos de cozinhar, aos sistemas de rega e muitos outros inventos, como os matrecos.

Fazer daquele espaço um lugar massivo e popular é um belo desafio. E será bom. Deixará atrás a melancolia das origens. Justificará melhor todo o dinheiro investido e o que ainda há que investir. Será prático e terá o bom senso de reutilizar um quase mausoléu para um projeto massivo e vertebrador nacional, fomentando a sua apropriação. Muitos espaços na história forom edificados à custa do bem-estar da gente quando não sobre a opressão da gente. Reutilizá-los, fazê-los da gente é um modo de restituição e um ato de justiça histórica. E um modo bem prático de contribuir para o bem-estar das pessoas e a sua coesão social.

 

Sobre o autor

Elias J. Torres Feijó

Tenta trabalhar coletivamente e acha que o associacionismo é a base fundamental do bom funcionamento social e comunitário. A educação nos Tempos Livres é um desses espaços que considera vitais. Profissionalmente, é professor de Literatura, em origem, e, mais, na atualidade, de Cultura.

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Manuel Jordán Rodríguez

Profesor da Universidade de Santiago de Compostela (USC).

Xosé Manuel Sarille

Polemista e tamén escritor. Autor do ensaio "A Causa das Mulleres". A quen lle interese lelo pode solicitalo neste blog e enviaráselle ao enderezo correspondente sen custo ningún do exemplar nin do transporte.

Xoán Carlos Carreira Pérez

Doutor engenheiro agrónomo, professor de Engenharia Agroflorestal na Universidade de Santiago de Compostela. Autor de vários livros e artigos científicos, tem colaborado em diversos meios de comunicação, como A Nosa Terra, El Progreso, Vieiros e Praza Pública.

Elias J. Torres Feijó

Tenta trabalhar coletivamente e acha que o associacionismo é a base fundamental do bom funcionamento social e comunitário. A educação nos Tempos Livres é um desses espaços que considera vitais. Profissionalmente, é professor de Literatura, em origem, e, mais, na atualidade, de Cultura.

Viva Cerzeda

Espaço público, Cultura, Política, Comunidade, Território, Pessoas… Viva Cerzeda é a comemoração, para nós, da amizade, do bom humor sempre que possível e de tentar contribuir com algumhas ideias e opiniões para entender(mos) e atuar(mos) do melhor modo o mundo… É ambicioso mas é-che o que há… e para mais não damos…

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