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Défices na maturidade cultural galega II

O AVE, a Madrid ou à Galiza, o AVE

Bom, quiçá seja este um primeiro interrogante útil: essa obra é para ligar Madrid à Galiza ou para ligar a Galiza a Madrid? A resposta, cálculo, virá pronta: para as duas cousas! No entanto, parece-me que o efeito vai mais na segunda que na primeira direção. Ao menos desde a Galiza, parece-me que assim é visto, talvez com exceção de interesses comerciais que se projetem em pensar que assim hão-de vir mais turistas…

Outra pergunta: é prioritária? Ao teor das demandas dos grupos sociais e, sobretudo, político-partidários, que colocam o assunto no centro do debate, parece não haver dúvida. Imagino também que terão explicado os benefícios e que será negligência minha não tê-los conhecido e presentes… É verdadeiramente prioritária a ligação mais rápida a Madrid? Prioritária significa que deve ir antes que outras cousas, de igual ou diferente género… E para quem é prioritário?

Leio em algumhas fontes que, por exemplo no caso da Corunha, a viagem poderá encurtar-se em pouco mais de meia hora, descendo a 5,08 horas, nos próximos anos; e que a expetativa está em baixar a 3,15 horas num futuro mais ou menos difuso, no melhor cenário. Sou firme defensor do comboio como meio de comunicação (por isso lamento e indigno-me com a degradação da linha Ferrol-Santander, 12 horas de viagem, 1 hora em média de atraso) e pergunto-me se vale a pena o investimento. Vão já milhares de milhões de euros, que, talvez, mesmo falando de comunicações e de comboios, iriam melhor investidas na comunicação trans-cantábrica, com saída ao resto da Europa e prolongamento a Portugal, Porto, Lisboa, Algarve, com que a precariedade das comunicações é gritante. Tudo sem por isso deixar de investir numha melhor ligação a Castela e a Madrid e, sobretudo, em melhorar a coesão comunicacional terrestre no interior da Galiza, da que ouço falar pouco ou quase nada, ou nada…

Olhemos agora o mapa de comunicações da Galiza com o resto da Península: as melhores ligações são com Madrid, ligações sobre as quais ainda se quer investir mais para melhorá-las. É bom isso para nós? Acho que maior diversificação e melhoria de comunicações seria mais útil… As ligações comunicacionais manifestam desejos e dependências, entre outras cousas… Portanto, mais desejo de ligação e mais dependência com Madrid, um unilateralismo que, em tempos de necessários e protetores eufemismos, podemos definir como empobrecedor… Isto reforça um canal de recursos unidirecional pobre…

Ora, há mais algumha questão, que tem a ver com a soberania: é difícil para mim não ver nisto um ato de dependência cultural, dos modos de ver e fazer o mundo polo mundo fora e aqui. Há mais dum século, as forças galegas e galeguistas faziam já queixa das comunicações ferroviárias com Madrid. A atmosfera que as envolvia, em bastantes ocasiões, era a da constatação dum desprezo, dumha marginalização da Galiza, o qual era bastante correto em termos relativos e, sobretudo, absolutos. Hoje não é tanto, mas, mui especialmente, as prioridades potenciais podem ser outras, muitas outras. As comunicações podem ou não melhorar-se mas parece que o que não se aggiornou foi o sentido de queixa e insuficiência; o nosso modo de ver o mundo. A queixa convertida em lamúria perene, como um mal genético, como se ficássemos ancorados nas elaborações de desigualdade do passado e necessitássemos um referente de dependência sistémico para existir desta maneira, insuficiente… Insuficiência de não podermos definir mapas comunicacionais próprios. A incapacidade de desenvolvimentos auto-centrados e práticos. A interiorização de hierarquias e violência simbólicas, de fraqueza e insuficiência, que impede tomar decisões próprias, ao menos propô-las, com consequências identitárias e culturais, de bem-estar social evidentes. O caso do AVE e a paralela ausência do caso “Interior/vertebração/coesão da Galiza”, da comunicação com Portugal ou com o resto da Europa, incluindo o mundo transcantábrico, é reflexo, alegórico e real, da nossa desistência e abandono; claro expoente da redução dos nossos canais informativos e comunicacionais, do afunilamento das transferências que não passem pola capital espanhola (isto explica bastante a in/formação quase unilateral via espanhol de bastantes das elites culturais galegas), da baixa proteção cultural e da ausência de alianças galegas para a promoção da sua coesão, tradição e difusão culturais; da nosa ausência de prática soberana prática. Assim andamos, Saudade vai, saudade vem

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Sobre o autor

Elias J. Torres Feijó

Tenta trabalhar coletivamente e acha que o associacionismo é a base fundamental do bom funcionamento social e comunitário. A educação nos Tempos Livres é um desses espaços que considera vitais. Profissionalmente, é professor de Literatura, em origem, e, mais, na atualidade, de Cultura.

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Xoán Carlos Carreira Pérez

Doutor engenheiro agrónomo, professor de Engenharia Agroflorestal na Universidade de Santiago de Compostela. Autor de vários livros e artigos científicos, tem colaborado em diversos meios de comunicação, como A Nosa Terra, El Progreso, Vieiros e Praza Pública.

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Tenta trabalhar coletivamente e acha que o associacionismo é a base fundamental do bom funcionamento social e comunitário. A educação nos Tempos Livres é um desses espaços que considera vitais. Profissionalmente, é professor de Literatura, em origem, e, mais, na atualidade, de Cultura.

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Polemista e tamén escritor. Autor do ensaio "A impostura e a desorientación na normalización lingüística". A quen lle interese lelo pode solicitalo neste blog e enviaráselle ao enderezo correspondente sen custo ningún do exemplar nin do transporte.

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