Espaço público, Cultura, Política, Comunidade, Território, Pessoas

Ganhar a esperança

Ganhar, que não ter. Ter constitui o desejo sem ação; ganhar demanda umha atitude, ativa.

(atitude e ativa são palavras que se parecem mas procedem de étimos diferentes; como se confundem étimos, também há pessoas que confundem significados e estados; há quem pensa que com ter atitude basta para estar ativa; como há quem tem esperança mas nada faz, por vezes porque nem repara nisso, por ganhar a esperança).

A esperança, para pessoas com fé, alberga também umha transcendência. Vivem com a esperança da ressurreição mas isso não exclui (ao contrário, seria umha premissa maior em algumhas crenças) que devam trabalhar por fazer realidade na Terra aquilo a que aspiram no paraíso em que acreditam. No catolicismo, a esperança é umha virtude teologal, precisamente baseada na certeza da ressurreição, juntamente com a fé e o amor (a Caritas), que é a maior. “Caritas”, um dos braços assistenciais e de serviço mais notáveis da Igreja Católica, visto muitas vezes com receio de quem está porque seja o Estado quem corrija a desigualdade e a opressão e porque seria instrumento de perpetuação do status quo injusto… Para mim, umha da ações decisivas no nosso mundo para aliviar sofrimentos levado para a frente por pessoas admiráveis, tanto me faz se movidos por algumha daqueles virtudes ou por outras ou por nengumha: virtuosas são elas, base fundamental para ganhar a esperança. Bem o sintetizou o meu admirado Sarille (umha figura, dito seja aqui de passagem mas se calhar ainda volto sobre o assunto, a quem um setor da sociedade galega devemos muito, também no âmbito da esperança para a cultura galega) em recente entrevista (https://www.lavozdegalicia.es/noticia/galicia/2021/09/17/xose-manuel-sarille-ponton-e-unha-aposta-do-poder-interno-do-bng-non-estivese-seria-unha-debacle/00031631907176763712300.htm) e nada mais tenho a acrescentar.

Mas há umha religião que pode ser praticada sem necessariamente essa transcendência sobrenatural que não depende da vontade mas da crença. Gosto de pensar que religião é palavra interessantíssima, com esse re– enfático, esse -ião, motor, ação, e esse lig(are) formoso, de unir-se, há quem à transcendência, há quem à natureza, há quem à gente e há quem a tudo. E lembro que transcendência significa subir dum lado para outro, bela etimologia igualmente.

Mui galega a cousa essa da ligação. Para o caso galego, talvez falte entender melhor o sistema de valores, costumes e crenças que historicamente nos constituiu como povo, onde o Cristianismo enraizou de maneira notável, imposta mas em muitos casos finalmente acoplada aos nossos modos e costumes e que configura um modo de estar e entender o mundo que apresenta singularidades notáveis. Se cito aqui o Cristianismo, é por ele ser corpus fortemente condicionador na nossa realidade e para darmos atenção ao seu sentido comunitário e coletivo, também à sua narrativa, da que, particularmente (ainda que isto não interessa ao argumento) me sinto fortemente vinculado, em valores e formas de ver o mundo. E, também, porque o Cristianismo, na sua vertente fundamentalmente católica aqui, aquela Caritas, ou noutras latitudes o denominado Protestantismo, com ações de toda a classe (como o Escutismo, doutro ponto de vista, ou multitude de ações missionais polo mundo –empenhadas muitas vezes na defesa da gente indefesa-) são formas decisivas de ganhar a esperança, de que as pessoas que nos situamos na esquerda que pretende transformar para um mundo mais justo e igualitário muito temos que aprender, com humildade.

Há anos comecei a escrever um livro sobre voluntariado e associacionismo e construção comunitária. Provavelmente, não o concluirei, porque não há tempo para tudo e há que priorizar atividades e ações. Nele, por extenso e entre outras cousas, queria definir a fundamental baliza que existe entre a ação voluntária e a ação retribuída, em dinheiro ou espécie, e os seus efeitos nos diversos coletivos em que se exerce. Voluntariado é soberania individual e coletiva, compromisso afetivo; profissionalização é dependência, ou patronal ou do demandante; não exclui afeto mas não é a sua razão de ser.

Tentaria, nesse livro, analisar como a retribuição invadiu os espaços coletivos, enfraquecendo as possibilidades associativas e comunitárias. Como a mercantilização desses espaços faz com que, por exemplo, no âmbito das atividades nos tempos livres, se interprete e contrabandeie (há muita impostura…!) como construção comunitária ou educativa, integral ou não, o que é puro espaço, avulso (caraterística marcante) de enredo e entretenimento, de passar o tempo diluindo o potencial comunitário de modo exógeno (não gerado desde o interior d@s participantes). O mundo das atividades e da educação dos tempos livres é um exemplo disso mas pode encontrar-se noutras muitas dimensões da vida.

Se falo disso é porque o voluntariado, o associacionismo, são formas de ganhar a esperança. Exigem ação e sustentada no tempo, coletivo, concretização, resultados e, sobretudo, processos. Abrem espaços de autonomia a respeito de determinadas formas de poder e dependência; e de comunidade, aberta e construída polas suas pessoas integrantes.
Acho que não banalizo sugestões de ganhar a esperança se formulo o que, a meu juízo, são indicadores de atitudes que ganhem a esperança. Atrevo-me a isso, com pedido de desculpas se for impertinente ou parecer soberbo; cito apenas quatro:

  1. Fazer algumhas cousas que transcendam a própria pessoa, que sirvam para melhorar, em algum aspeto, a qualidade de vida doutros seres;
  2. Atuar em concreto e, ainda que o âmbito seja universal, localmente. E tentar que a ação poda ser medida nos seus processos e resultados. E de modo sustentado no tempo;
  3. Fazê-lo coletivamente. Integrar ao menos um coletivo ou entidade e estar ativa nele. E, ao menos, dar recursos, asssociar-se, o que for a mais algum, ainda que não sejamos ativas nela ou essa ação não perdure no tempo. O coletivo é o grande espaço de entendimento e onde o conforto deve ser construído;
  4. Conversar com outras pessoas, de modo mais ou menos periódico, sobre realidades do mundo próximas, ou afastadas, com vocação de respeito, intercâmbio, aprendizagem e ação consequente.

Onde? Ao longo da vida, há quem nos complicamos a com análises complexas; e bem está porque assim o demandam determinadas realidades, também aquelas de onde emana a injustiça, cada vez mais sofisticadas. E, ao mesmo tempo, as soluções e os caminhos da esperança, intimamente ligados à ação coletiva, do meu ponto de vista, são simples; convém analisar e duvidar, certamente, mas também não ficar em parálise à procura dumha enésima causa, que muitas vezes é pretexto, para não agir e ganhar a esperança. A Leonard Cohen atribui-se umha frase demolidora desse formoso simplismo: “Por vezes, sabemos de que lado estar simplesmente vendo quem está do outro lado”… É essa a forma de lutar contra o desconcerto do mundo e contra o medo.

Penso que, se definirmos bem capacidades, possibilidades e objetivos como atingíveis, estaremos ganhando esperança e produzindo bem-estar, também em nós. Ganhamos esperança e ganhamos (a) esperança. Ela constitui, assim, um estado de expetativa otimista. Precisa de investimento de tempo, energia e recursos, de ação, que confortam. Porque, certamente, ganhar (a) esperança gera otimismo e bem-estar, mesmo que a ação seja dura, o esforço grande e os resultados magros; mas são. Essa esperança alicerça em algo que nos transcende, que, sendo benéfica para nós, esperamos que o seja para a quem nos dirigimos. Faz crescer. E, se ruir, saberemos como voltar, mais sabiamente, a construir esperança. A esperança é sempre um dia depois; e o motor da vida é ela.

Tem mais virtudes, nem faz falta que sejam teologais: combate o individualismo e convida para socializar, ouvir, consensuar ou discrepar numha construção comprometida. E para aprender de quem assistimos, dele/a retirar e a ele/a dar afetos. Eleva a paixão e conforta se houver infortúnio, que as penas compartidas são menos penas.
Noutro dia, vim estudantes autoproclamados antifascistas recolher alimentos ao pé dum supermercado. Oxalá seja umha ação sustentada no tempo e na esperança. Fiquei feliz de ver novas atitudes e entender quantos motivos há para ganhá-la.

Sobre o autor

Elias J. Torres Feijó

Tenta trabalhar coletivamente e acha que o associacionismo é a base fundamental do bom funcionamento social e comunitário. A educação nos Tempos Livres é um desses espaços que considera vitais. Profissionalmente, é professor de Literatura, em origem, e, mais, na atualidade, de Cultura.

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Xoán Carlos Carreira Pérez

Doutor engenheiro agrónomo, professor de Engenharia Agroflorestal na Universidade de Santiago de Compostela. Autor de vários livros e artigos científicos, tem colaborado em diversos meios de comunicação, como A Nosa Terra, El Progreso, Vieiros e Praza Pública.

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